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Efeitos das despedidas

29/03/2016 • 5 Comentários

Efeito das Despedidas

Dizem que para cada despedida, vem um novo “Olá”. Que nada é pra sempre e que a vida é breve. Essas e outras frases insistiam em preencher minha cabeça e deixar aquele gosto amargo na garganta. Quem é que inventou o adeus? (ou o definiu?) Certamente, na inocência, não sabia o peso que a palavra ia carregar conforme mais e mais pessoas no mundo a reproduziam.

Os quilômetros de distancia até o aeroporto iam diminuindo de acordo com o google maps e meu peito apertando mais pouco a pouco. Uma semana havia sido tão pouco. Achei que depois de quase 3 anos de experiência, eu teria aprendido. Achei que depois de dizer tantos “adeus”, que ficaria cada vez mais fácil partir lados e continuar vivendo. Que a dor no peito seria mais leve e que a chateação seria menor.

Acho que isso não existe.
E não sei dizer se isso é por amadurecimento próprio ou se é por uma regressão mesmo.
A prática não leva a perfeição? Talvez não haja prática para sentimento… Mas não existem tantos textos reflectivos sobre a gente aprender a se amar mais, se cuidar mais, se valorizar mais? Ou se importar menos, se estressar com menos frequência, levar as coisas numa boa.. Isso tudo não é sentimento?

Lembro de todas as vezes que viajei com a minha mãe e minhas irmãs e do quanto uma “viagem” era algo grande pra nós. Era todo um planejamento para fazer as malas, preparar os documentos, ir para o carro e chegar no aeroporto em tempo. Fazer o check in, entrar no avião e finalmente decolar. Curtíamos cada etapa e viajar de avião era algo tão grande e importante pra nós, que todos iam no aeroporto dar tchau ou receber alguém quando chegavam.

Desci do taxi, peguei as malas e me dirigi até o elevador.
Tive vontade de chorar.
Minhas viagens atuais se resumiam a isso. Eu chegava sozinha e ia embora sozinha. Em silêncio. De mente agitada e peito sufocado. Os “Adeus” eram feitos em casa, antes de irem pro trabalho ou em um intervalo rápido na empresa. E eu me fiz acreditar que estava bem com tudo isso. “O mundo não para por você”, e eles estão certos. Não é isso que pessoas adultas fazem? Acordam, tomam café da manha, se arrumam pro serviço, trabalham, voltam pra casa, jantam… Cuidam de si mesmas, sozinhas, por aí? Cheguei naquele ponto da ansiedade em que dizia pra mim mesma que eu era dependente sentimentalmente das pessoas e que devia aprender a lidar com sentimentos engasgados por mim mesma. Mas, hey.. Não era Tom Jobim que dizia “É impossível ser feliz sozinho”?.

Talvez eu fosse mesmo um pouco emocionalmente dependente das pessoas que eu amava. Acho que temos que ser fortes o suficientes para encarar os problemas com cara dura e ir atrás da solução sejam eles físicos ou emocionais. Mas será mesmo que era tão errado deixar que as pessoas próximas a nós nos dessem uma mãozinha quando a gente precisasse?

“Tenha um bom voo!”, me disse o moço do check in.

Enquanto colocava minha bagagem em ordem para passar pela segurança, notava as famílias viajando juntas. Pais e filhos, senhores e senhoras de idade se aventurando pelo mundo, jovens provavelmente embarcando para fazer mochilão pela europa e quilos de bagagem a passar pela esteira e raio x.

É importante se aventurar pelo mundo. Pelas escolhas próprias. Pelos caminhos escolhidos por você e só por você. É importante viajar sozinho para se auto-descobrir. Para poder definir bem o que você quer, o que você gosta e o que você não aceita de jeito nenhum. Mas também é importante ter alguém com quem contar. Ou algo. Não importa quem for ou o que seja. Veja bem, estou me referindo aqui a um porto seguro. A algo que lhe motive, que te dê forças e que sempre seja aquela coisa que vai te fazer parar, refletir e seguir em frente seja qual for o momento difícil que você esteja passando. E isso não tem nada a ver com ser emocionalmente dependente. Tem mais a ver com a fonte da sua perseverança e busca por dias melhores.

Eu percebi que detesto despedidas, que não aprendi a levá-las na esportiva e que não fiquei melhor com o tempo, mas que tenho que lidar com elas e com o fato de que minhas escolhas as tornaram mais presentes na minha vida. E que se eu sofro tanto nas despedidas, é por que eu sou sortuda o suficiente para ter pessoas que me amam com todo o meu coração e que me apoiam e torcem por mim onde quer que eu esteja.

Eu tenho “alguéns” com quem posso contar. Alguéns que, do serviço, de casa, do ônibus e de onde quer que estejam, estarão comemorando que estou chegando mesmo que pra ficar poucos dias. Alguéns que assim como eu, estarão esperando por dias melhores.

Dias onde eu vou chegar e não vou mais ter que ir embora.
Dias onde não teremos mais que dizer adeus.
Nem eu e nem eles.

beijos, Fernanda
5 Comentários
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  1. Helena
    07/04/2016 - 18h57

    Lindo texto Nanda! Não consigo te achar no youtube 🙁 Qual é o nome do seu canal? Beijooooos

  2. 08/04/2016 - 02h15

    Chorei um pouquinho 🙂
    Que texto lindo!

  3. 13/04/2016 - 13h47

    Baita texto Fê! Saudades de ti nas aulas de jornalismo.

  4. Claudia
    17/04/2016 - 04h52

    Lembro que te acompanhei lá no comecinho, qndo vc só tinha um plano de fazer intercâmbio, depois finalmente ele aconteceu e sucessivamente tudo foi se encaminhando para que seu sonho de ser aeromoça se realizasse! Naquela época eu tb estava apenas sonhando com o que eu queria, hj em dia estou no meu ultimo ano da faculdade… A vida passa mt depressa pra gente se prender a julgamentos da sociedade sobre oq sentimos… Apenas sentimos! E temos esse direito em qualquer fase da vida, seja ela adulta ou não! ” eu te desejo não parar tão cedo, pois toda idade tem prazer e medo!” 🙂

  5. Layza
    11/05/2016 - 12h51

    Eu estava vendo alguns blogs que eu seguia e lembrei do seu, foi uma experiencia muito grande para mim que acompanhava seu diário de intercambio. Os anos passaram e vejo que esta muito feliz seguindo uma carreira maravilhosa!!! fico feliz por isso, que você tenha muito sucesso nessa sua caminhada…

    Att.
    Layza