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Intercultural dating

15/02/2016 • 3 Comentários

 O que aprendi em um relacionamento intercultural

Nenhum relacionamento vem com um manual de instruções. O máximo que podemos fazer, é procurar conselhos, dicas e algum conforto em saber das experiências de família e amigos quando se trata de amor. Entretanto, ao se relacionar com uma pessoa de país, língua e cultura totalmente diferentes da sua, a situação é ainda mais diferente.

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Conheci o Jun através de amigos em comum, em um dia de folga. Ele estava passando as férias com a família em Dubai e eu estava em um daqueles dias programados para resolver perrengues. Seu inglês perfeito (e devo dizer, com sotaque australiano) me confundiu um pouco, mas finalmente chegamos na pergunta mais comum de Dubai em um diálogo: “De onde você é?“. Não bastasse nossos países ficarem a 0923810923 de quilômetros de distância um do outro, morarmos em lugares diferentes e pertencermos a continentes opostos, nós, de alguma forma, clicamos.

Um relacionamento entre duas pessoas de mesma cultura, língua e país já é naturalmente marcado por conflitos, momentos, memórias e etapas. Namorar uma pessoa onde tudo isso é diferente, torna a relação um desafio bem maior. Um grande exemplo disso, foi o meu pedido de namoro. Após uma semana de termos nos conhecido, Jun insistia que devíamos namorar, enquanto eu (como qualquer brasileira) estava com o pé atrás e lutava contra o quão maluco me soava. Foi quando ele me perguntou por quê eu insistia em rejeitar a idéia, que eu entendi que namoro para nós, pudesse ter diferente significado.”Se eu já disse o que sinto por você, e você gosta de mim, por que não?

No japão, quando se está apaixonado,  o primeiro passo é o kokuhaku, que em uma tradução liberal, significa confessar seu amor pra pessoa. Ao confessar o que sente, você basicamente pede seu amado em namoro e AÍ SIM se sai em encontros para se conhecerem. Completamente o oposto do Brasil! Eu não conseguia me imaginar namorando uma pessoa que era totalmente nova para mim uma vez que namoro no Brasil (pelo menos pra mim e da forma que fui educada) sugere apresentar o namorado à família, abrir a casa para ele vir e ir a vontade com você, ser próximo e comum aos amigos (de ambos) e acima de tudo, ser uma pessoa que você ama e confia com todo o coração. Como criar uma relação sem isso?

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Lembro que naquela época, aprendi a minha primeira lição. Teria de manter sempre minha mente aberta e lembrar que para nós, toda situação teria de ser abordada de forma diferente. Meu coração palpitava mais forte e decidi entrar nessa aventura maravilhosa. Aos poucos fomos nos ajustando um ao outro e moldando nossa própria ideia do que é certo e errado. Nossa história somos nós que fizemos e percebi que a comunicação (como em qualquer relação amorosa) vai ser sempre a parte mais importante, e onde tem amor, tudo se resolve. Minha segunda lição, foi perceber que sempre vamos ter pequenos conflitos de mal-entendidos. A língua que usamos para nos comunicarmos é o inglês – minha segunda língua e a segunda língua dele também -, ou seja, haverão vezes em que não conseguirei expressar exatamente o que quero ou como me sinto e isso gera frustração. O mesmo serve para quando falamos de senso comum. O que é de senso comum para mim, não é para ele. E isso vale para hábitos, gestos e conversas. Acredito também, que a relação só funciona por que nós dois mantemos como disse lá no início, a mente aberta. Se eu não estivesse de acordo em entender que certas coisas são normais para ele (como tirar os sapatos ao entrar em casa, por exemplo) e ele não aceitasse o quão afetuosa eu sou (o contato físico é grande parte da cultura brasileira), jamais nos ajustaríamos a ponto de aceitar o outro como ele é e com toda a bagagem que ele traz.

IMG_4868Em sua primeira visita a Dubai por minha causa (quando veio para me ver), eu quis muito apresentar Jun aos meus amigos. O tempo que tínhamos era extremamente curto. Jun ficaria em Dubai por somente 3 dias e já teria de voltar para Australia. Foi quando tivemos nossa primeira experiência de choque cultural. Para mim, era importante que ele conhecesse os meus amigos, pois tanto ele, como aqueles que estão aqui em Dubai comigo são pessoas de grande importância e, ter todas as pessoas que amo (e que posso unir) em um só lugar, trocando conversas e experiências, me faria muito feliz. Para mim, fazia muito sentido eu querer apresenta-lo aos meus amigos. Afinal, quer sinal maior de que a garota está gostando mesmo de você?

Para Jun, a experiência foi diferente. Comparados aos Brasileiros, os Japoneses são extremamente reservados sobre suas vidas pessoais. Eles não falam de sua vida amorosa nem mesmo para seus amigos próximos (com exceções, claro). Faz parte da cultura e é algo natural deles, assim como é para nós, brasileiros, conversar sobre tudo com os amigos e inclusive pedir conselhos. Naquela época, Jun achava que eu não o estava correspondendo bem, pois em sua mente (e eu fui entender mais tarde, conversando com ele), se nós tínhamos apenas 3 dias para estarmos juntos, por que eu estava dividindo o pouco tempo que tinha com ele? Eu demorei um bom tempo para entender isso. Era tudo muito óbvio pra mim, por que ele não conseguia entender? Foi aí que eu percebi que precisava explicar a importância daquele evento para mim. Minha intenção nunca foi em ter menos tempo com ele, e sim, unir os tempos de todos nós para uma noite agradável de novas descobertas e diálogos interessantes. Eu também precisei de tempo para interpretar os motivos dele de forma correta e aberta, sem desconfianças e dúvidas. Combinamos de sempre explicar as coisas abertamente um para o outro para não haver mais esse tipo de desencontro.

 IMG_5404Lembro que em alguns conflitos que tivemos, eu o ouvia dizer “I don’t care” (eu não me importo) e costumava ficar fula da vida por que sempre entendia como “não estou nem aí”. Fui perceber depois de muita conversa, que a mesma frase pode significar também um leve “Não me importo se em vez de irmos para tal lugar, formos para outro”. No caso da briga, significava um simples “Eu não me importo de fazer diferente” ou “Não me importo com o que aconteceu, passou, está tudo bem”. Tudo depende do contexto que você coloca. Entendem? Fora tantas outras vezes em que ele usou palavras que eu não entendia o significado por que além de tudo isso, o inglês de Jun é Australiano e o meu é Americano. Muitas palavras e gírias usados em ambos os países são diferentes.

Namorar alguém de uma cultura diferente da sua, expande seus horizontes e te ensina amor em outra língua. Passei a ver as coisas com outros olhos e conheci um um mundo novo de hábitos, tradições e ideias. Passamos horas conversando sobre as diferenças e semelhanças de nossos países e tudo o que notamos um no outro. A curiosidade e a compreensão são coisas que praticamos todos os dias, até na pesquisa de uma simples palavra na língua minha, ou dele. Acho muito meigo quando recebo um “Bom dia” em nosso bom e velho português de Jun! Me faz perceber seu interesse em mim e no meu background. O esforço de entender nossas diferenças e trabalha-las parte um do outro em conhecer de perto cada vez mais de onde viemos e por que fazemos as coisas do jeito que fazemos.

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A distância é mais uma coisa a ser acrescentada nisso tudo. Fui muito relutante a isso no início, pois achei que seria muito sofrido. Minha ideia de relacionamento nunca foi estar longe um do outro. Achei tudo muita loucura, mas como disse, foi aí que percebi que, até mesmo com a minha profissão, seria impossível ter o relacionamento que eu considerava ideal. Decidi abrir as portas (do coração e da mente) e tentar algo novo.

Uma outra coisa bacana que descobri, é que eu não sou a única a dividir a minha experiência. Existem diversos vídeos, páginas na internet e até mesmo uma webtoon sobre o relacionamento entre uma mulher ocidental e um homem oriental. É muito bacana ler as experiências de cada um pois me ajuda a entender mais sobre nossas diferenças e como trabalha-las. A união das duas culturas é muito bonita, e ver isso na prática pelos olhos e palavras de diversas outras mulheres e homens é extremamente interessante e gratificante.

Ainda hoje, fazemos ajustes um ao outro. Sempre temos algo a mais para aprender um do outro. Ano passado viajei ao Japão para conhecer a família e os amigos de Jun e também fui visita-lo na Australia. É mais fácil para mim ir ao seu encontro uma vez que viajo a trabalho e tenho um voo direto para a cidade onde ele mora. Estar com ele e aprender sobre a sua cultura em seu país foi uma experiência incrível e eu mal posso esperar pelo dia que ele irá comigo ao Brasil 🙂

Se vocês tiverem curiosidade de como é um kokuhaku, abaixo tem um vídeo onde vários meninos realizam a declaração. O vídeo está em japonês, mas dá pra entender o que está acontecendo. Se quiserem uma explicação mais detalhada, essa página na internet explica muito bem.

Happy Valentine’s day, everyone! <3

beijos,

Nanda

beijos, Fernanda
3 Comentários
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  1. Daniela
    15/02/2016 - 23h42

    Fernanda, te acompanho desde a época do seu blog do intercâmbio! Aliás, foi o meu maior motivador para começar a buscar realizar um intercâmbio, seu modo de falar, sua maturidade e sua escrita cativante me motivaram e me provaram que se eu mantivesse a cabeça no lugar e tivesse meu sonho como uma meta eu poderia alcançá-lo. E alcancei mesmo! Fiz intercâmbio pra França no ano 2014/15. Nesse meio tempo nunca parei de acompanhar seus passos. Ao passar no vestibular logo depois de voltar do intercâmbio você foi também motivo de inspiração já que esse era um dos meus maiores medos: não conseguir passar ao voltar do intercâmbio e me sentir frustrada por isso, já que também era algo importante pra mim. Lembro de pensar “se ela conseguiu eu também consigo!”. E assim foi! Hoje eu estou na faculdade aqui no Brasil mas meu coração ainda está lá fora, no resto do mundo, onde a vida parece que passa mais rápido e tudo é muito mais intenso. Aquele mundo em que cada dia é uma jornada de aprendizado sobre o novo e o diferente, e sobre nós mesmos. Aquele tipo de experiência que só acontece pra quem tomou aquele passo de coragem para fora das fronteiras das paisagens conhecidas ainda que com uma pontinha de medo. E a cada snap seu que eu vejo sinto uma enorme felicidade pelo seu sucesso mas também me sinto extremamente inspirada é motivada pelo seu trajeto de vida, você se abriu a uma nova experiência e contínuos em uma vida internacional, continua orgulhosa do seu país e continua tão cativante quanto nos primeiros vídeos e posts do teu blog de anos atrás!
    Enfim, esse comentário inteiro foi só pra dizer, obrigada! Por compartilhar sua história, por manter seu caráter e sua alegria.
    O teu talento pra escrever é apenas um complemento pras lindas histórias e reflexões que você tem a compartilhar.
    Novamente, muito obrigada!

  2. 19/02/2016 - 00h03

    Nanda, amo o seu blog! Acompanhava desde a epoca do seu intercambio. Acho sua maneira de escrever cativante! Você consegue se expressar com muita maturidade e amor! Parabens pelo blog, pela profissao linda, pelo relacionamento! Muito obrigada por partilhar de momentos e experiencias tao incríveis!
    Embora não te conheca ainda, espero um dia poder te encontrar céu afora. Te desejo toda felicidade do mundo! Que voce tenha sempre bons voôs e lindas experiencias!

  3. Luiza
    27/02/2016 - 07h33

    Ei, Nanda!
    Obrigada por compartilhar essas suas experiências incríveis no blog. Sempre aprendo muito com você, suas histórias e viagens!
    Quero aproveitar pra dizer que você é simplesmente inspiradora. Há seis anos -desde os meus 12, olhe só!- vc me deixa cada vez mais curiosa e corajosa pra conhecer coisas novas, culturas novas e me apaixonar mais e mais por esse mundo tão diverso!
    Obrigada por tudo, durante todo esse tempo. Você é definitivamente iluminada! 🙂