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O dia em que deu tudo errado

06/02/2016 • 7 Comentários

“O mais legal de trabalhar pra uma companhia aérea, é que eles te dão desconto nos voos. Sai praticamente de graça!”

Uma das peripécias da vida no ar (além de viajar o mundo todo), é os descontos que recebemos nas passagens de avião. Tudo parece lindo e maravilhoso, mas nada é tão simples. Peguem uma cadeira e uma caixa de pipoca e sentem que tenho história pra contar.

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Lá estava eu, de mala feita e coração pronto para chegar do trabalho (vulgo, um voo) e embarcar pra minha próxima viagem: Férias na Austrália com o namorado! Jun e eu não nos víamos fazia quase 3 meses e a empolgação de chegar de um voo, pegar minhas coisas e correr pra outro era tanta, que eu mal podia conter. Mal sabia eu tudo o que estava por vir.
Dentre as passagens com desconto que podemos comprar, aquelas que são com desconto maior  não são confirmadas, ou seja, se o voo estiver muito cheio, você simplesmente não embarca :).

Até aí tudo bem, nós temos quantos voos pra Austrália mesmo?  (vários)
Ah, tranquilo! Em algum deles eu entro né?
Não. Não entra.
A Austrália é um destino muito popular dentre as pessoas e geralmente, todos os voos estão lotados. Na minha inocência, cheguei no aeroporto de mala e cuia e fui rejeitada em um, dois, TRÊS voos diferentes. Leva um dia (quase um dia e meio) para chegar do outro lado do mundo, fora que, Jun morava na Tasmânia, eu além de ter que pegar um voo até a Australia, ainda teria que pegar outro até a Tasmânia (e isso só se eu fosse para Melbourne! Qualquer outra cidade na Austrália, eu ainda teria de embarcar para MEL para DEPOIS ir para a Tasmânia!).

Tudo bem, calma, existem outras cias aéreas que eu posso tentar, outros voos amanhã, as coisas vão se encaixar, e qualquer coisa, eu compro um tíquete inteiro, sem desconto (glup!). Bora voltar pra casa e achar uma solução. Cheguei em casa ás 1h20AM e sentei no computador. As mãos tremiam, o coração sufocava na garganta e a ardência no estômago só aumentava. Algumas pessoas conseguem lidar super bem com a ansiedade. Não é o meu caso.

Todos os voos estavam cheios. Não havia possibilidade de descontos e eu estava começando a perceber que iria perder no mínimo, mais 4 dias dos 10 que eu tinha só tentando CHEGAR na Austrália.
Detalhe: Temos 31 dias de férias por ano para distribuir aonde gostaríamos, mas isso tudo é feito por um sistema onde fazemos a requisição e eles nos concedem ou a data exata que pedimos, ou a data mais próxima. Somos 22mil tripulantes. Eles fazem o que podem. O que acontece nas suas férias, é de sua responsabilidade.

O nervosismo de perder dias de férias, dinheiro em passagens, todo um visto e viagem planejadas começaram a cair sobre mim e entrei em um estado de desespero. Continuei a procurar. Sistema da empresa, skyscanner, google, todas as páginas possíveis estavam abertas e meus dedos digitavam desesperadamente no teclado.
Exatamente às 6h33 min, eu havia encontrado um, UM voo que me levaria a Hong Kong e então, Melbourne. Lá estava eu tentando marcar voo de Melbourne para Tasmânia pra depois pensar se poderia reservar esse. Uma coisa não funciona se a outra não funcionar primeiro, estão acompanhando meu raciocínio?

Ok, certo, um dos voos está confirmado, agora falta comprar o voo para Melbourne (passagem inteira, comprada do dia pra noite), bora pegar o cartão de crédito e finalizar tudo pra aquietar o coração. Né? Não. (Y)
Foram tantas passagens compradas, realocadas e etc, que nem limite no cartão de crédito eu tinha mais, legal né? Mais uma vez, meu mundo desabou. E agora?

Oi mãe, me salva?
Por mais incrível que pareça, ela me salvou. Via telefone e muitas tentativas, minha mãe conseguiu me dar uma mão e eu pude finalmente descansar sabendo que iria viajar naquela noite. Naquele momento, aprendi que não importa o quão adulto e dono de nós mesmos nos tornemos, moms will be moms. Mais do que um socorro financeiro (que eu paguei devidamente assim que tive a chance, just so you know), minha mãe me deu a mão psicológica que eu precisava, me confortando e fazendo sentir melhor a 20938120938012 quilômetros de distância.

Lá estava eu pela segunda vez no aeroporto no mesmo dia, à noite. Devidamente embarcada e em meu assento, finalmente pude dormir um pouco. Notei que a Cathay Pacific era uma cia aérea muito bacana e que o uniforme – e as comissárias, devo dizer – eram muito lindas. Será que eu poderia um dia fazer parte dessa empresa? Consigo me imaginar totalmente nesse uniforme vermelho e morando em Hong Kong. Tentei dormir mais um pouco.

Meados do segundo serviço de bordo e final do meu terceiro filme, resolvi checar mais uma vez o horário do meu voo de Hong Kong para Melbourne. Só por precaução sabe? Em meio a todo o desespero e ansiedade que se passam na minha cabeça, aprendi que checar 3 ou 4 vezes se necessário, sempre me acalma.
Chegada em Hong Kong: 11AM
Saída de Hong Kong para Melbourne: 10AM
Epa.. Como assim?
Lá estava, dentre as linhas do tíquete: Pernoite em Hong Kong de 25h.

Um minuto de silêncio pra mim. Eu havia reservado um tíquete onde teria de passar 24h em Hong Kong e nem havia percebido. Eu soube checar se precisaria de visto para entrar em Hong Kong, se minha mala tinha excesso de peso e se as datas estavam corretas, mas não tive a atenção de checar TCHAHAM, as datas. Graças ao meu bom senso e desespero, as datas dos voos entre Melbourne e Tasmânia estavam certos, mas como, COMO eu não me dei conta que eles tinham 2 dias de diferença, eu não sei.

Lá fui eu, descabelada, com as meias por cima das calças, havaianas com meia e cobertor enrolado no corpo, perguntar para as comissárias se havia algum hotel no aeroporto que eu pudesse ficar nem que por algumas horas.

Nossa moça, não sei. Acho que tem um ou dois, mas não sei o nome deles não”
“Tem vários hotéis ao redor do aeroporto, tenho certeza que você acha um”
“Assim em cima da hora não sei como funciona, mas quando você chegar no hotel, da-se um jeito”

Apesar das aeromoças serem muito simpáticas, fiquei no nervosismo de achar uma solução. Depois de respirar fundo e tentar me acalmar de todos os jeitos, coloquei a mente para funcionar. Pior dos casos, eu dormiria no chão, agarrada às minhas malas, não é?

IMG_4852Para complicar um pouquinho mais a situação, havia um Tufão em direção a Hong Kong e fizemos diversas tentativas de pouso sem sucesso. Após o capitão anunciar que talvez teríamos que desviar para a China, tentamos mais uma vez nos aproximar do aeroporto e finalmente pudemos pousar tranquilamente.
Ao desembarcar, lembrei da minha amiga Eva, lá do intercâmbio nos Estados Unidos. Atualmente ela estava trabalhando na Dragon Air (aquela cia aérea, baseada em Hong Kong com um uniforme super lindinho!) então se ela estaria lá ou não, eu não poderia saber.

Usei a internet do aeroporto para tentar marcar um hotel no último minuto que fosse perto do aeroporto e mandei uma mensagem para Eva. Fui a um caixa eletrônico e me dirigi para o táxi. Para minha surpresa, Eva estava em Hong Kong e poderia me encontrar! Foi quando entrei no taxi que fiquei mais tranquila. A chuva caía forte e o taxi levou quase 30 min para chegar no hotel que era ‘perto’ do aeroporto.

“Moça, a reserva ta aqui ó, eu acabei de fazer enquanto estava no aeroporto”
“Desculpe, não consigo encontrar nada no sistema para hoje”
“Mas o número é esse aqui: J-1-3-A-C-V”
“Me desculpe senhorita, mas essa reserva é para amanhã”

….

De fato, a reserva que eu havia encontrado, com desconto e facilidade era boa demais pra ser verdade. Lá estava eu no hotel, com uma reserva que não era reembolsável, PARA O DIA SEGUINTE. Além da moça quase não falar inglês, fiquei bem brava com o gerente que não se prontificou a ajudá-la quando ela pediu e muito menos responder à minha pergunta de como cancelar a reserva – uma vez que eu pagaria taxa adicional se não aparecesse no dia seguinte.

Me rendi ao cansaço, stress, fome, imensa dor de cabeça e vontade de chorar e paguei um valor absurdo com o resquício de dinheiro que eu tinha para reservar um quarto lá na hora. Entrei no quarto, fui pro banho e chorei.

Chorei de tudo que era jeito.
Eu nem roupas tinha comigo, com exceção da minha bolsa e a pequena mala de mão (onde coloco objetos de valor), minha maior bagagem estava sendo mandada diretamente para Melbourne no dia seguinte. Eu não possuía se quer uma muda de roupa íntima para colocar depois do banho.
Chorei tudo o que podia e mais, até a cara ficar inchada e marcada de tanto estresse. Como que algo que era para ser tão bom acabou dando tanto prejuízo? E quando digo prejuízo, não me refiro a somente o financeiro, mas sim a todo o desgaste emocional que essa experiência me custou.

IMG_4855Finalmente, me recompus, coloquei a mesma roupa ~fedorenta~ e fui encontrar Eva.
Eva é tão meiga que veio do outro lado da cidade me fazer a visita.
Vê-la me deu uma sensação de calmaria e segurança por saber que estava com alguém querido. Nossa primeira parada foi para comer. Eu estava exausta e faminta e francamente, não sabia qual das duas sensações era a pior. Chovia e parava a todo o tempo e a cidade estava muito abafada. As únicas roupas que eu tinha eram as que eu estava no corpo: Calça jeans e um blusão. Vocês podem imaginar o quanto eu suei.

Finalmente fomos comprar roupa íntima (pra que eu pudesse ao menos trocar a roupa de baixo) e passear um pouco para a cidade para me distrair. Eva insistiu que eu deveria ter ficado na casa dela e que eu fosse ao menos conhecer sua família. No estado emocional e físico que eu estava, pedi mil desculpas e prometi ir em uma próxima vez.
Passamos o dia passeando e a noite ela fez questão de me deixar no hotel <3. Não era muito tarde, mas devido a tudo o que eu havia passado naquele dia, o nível da minha dor de cabeça era indescritível e o cansaço havia tomado conta do meu corpo.

Dormi.
Acordei no meio da noite e só alí, depois de um bom descanso, consegui observar o quanto o quarto era bonito. A vista era muito bonita e a cama muito confortável. Faltavam mais algumas horas para eu começar a me arrumar e fazer o check out e eu poderia finalmente descansar a mente uma vez que o corpo estava um pouco mais relaxado.

7AM e eu já estava em pé quase pronta.
Check out feito e mais 30 minutos para chegar no aeroporto. É incrível o que uma boa noite de sono e uma dose de fé podem fazer com a gente. Tive uma longa conversa e chororô com a minha mãe no telefone. Por que as coisas dão tão errado as vezes? Será que é o universo tentando nos dizer alguma coisa? No meu caso, alguém ou alguma coisa não me queria na Austrália, RS.
A resposta da minha mãe foi bem clara: “Mas você está indo né? Com todas as dificuldades, você fez acontecer

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Verdade.
Isso me deu um pouquinho mais de força e coragem e fui.
Cheguei em Melbourne e ainda tinha que esperar mais 8h pelo próximo voo para Tasmânia.
Me encolhi em uma cafeteria, coloquei House no netflix e passei a noite esperando pela hora de Check in.

Muitas horas, dinheiro em excesso de bagagem e vários cafés depois, lá estava eu em um avião mínimo com capacidade para 30 pessoas. A viagem até a Tasmânia é linda. Aliás, a Tasmânia em si é linda, mas mais lindo ainda, é chegar na casa de quem você ama.

Tive que pegar um taxi sozinha do aeroporto até a casa do Jun, pois naquele dia ele estava trabalhando. Achei a chave escondidinha em um local combinado por nós dois e fui direto para um banho quente. Deitei na cama e só acordei com ele batendo na porta.

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Estranho que do outro lado do mundo, eu dormi em uma cama, usei o chuveiro e abri a porta de um lar que não era meu, mas jamais me senti tão em casa como naquele momento de abraço, depois de abrir a porta.

– Nanda.

beijos, Fernanda
7 Comentários
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  1. Anônimo
    07/02/2016 - 13h03

    Que coisa linda! Você fez acontecer mesmo e essa experiência será lembrada pra sempre por ambos. *-*

  2. Thaynara Oliveira
    09/02/2016 - 00h11

    Amei o relato Nanda ❤️ Às vezes pelas fotos do Instagram, a gente pensa que tudo é perfeito é maravilhoso o tempo todo. Mas existem os momentos difíceis e sentimentos tristes. Existe esse lado “real”. Amo sua história e sempre te acompanho. Sucesso!

    • 10/02/2016 - 16h20

      Oi Thaynara, tudo bem?
      Fico hiper mega feliz de ver que tu entendeste a principal mensagem que quis passar! 🙂 “A grama do vizinho” sempre parece mais verde né? Acho importante e bacana falar desse lado real pra que todos entendam que nada e perfeito, mas que sempre devemos dar o nosso melhor! <3
      Obrigada pelo carinho e por me acompanhar sempre! beijoca!

  3. 10/02/2016 - 18h06

    Olá Nanda! Te acompanho desde o blog de intercâmbio e adoro ler seus textos, saiba que você me inspira muito, mesmo nas dificuldades você continua tentando e isso é muito bonito.
    Que você alcance lugares ainda mais altos, porque de fato você trabalha para alcança-los. Beijos 🙂

  4. Bia
    08/03/2016 - 18h29

    Nanda, te acompanho desde o intercâmbio e não me lembro da última vez que comentei em um post seu! 🙁
    O que queria dizer é que fiquei inspirada pela sua perseverança, talvez na metade do caminho eu já teria jogado tudo para o alto e voltado pra casa! Rs. A partir de hoje vou me lembrar dessas histórias a cada vez que passar por uma dificuldade que nos deixa tão esgotada. Acredito que você tenha conseguido expressar o quão gratificante foi aquele abraço ao abrir a porta pois eu tb me senti, de alguma forma, em paz.

  5. Anônimo
    08/03/2016 - 18h32

    Suas palavras transmitem uma emoção que não consigo explicar!